|
|

Kaio
Veja meu perfil completo
|
|
26 maio 2013
23 a 25/3: Eu, Carol, a irmã dela e um casal de amigos fomos para Saquarema. Durante esse fim de semana os fatos mais relevantes foram: 1) A épica partida de War - Império Romano que jogamos no domingo à noite (e que não terminou, aliás; dentre os 4 que jogaram fiquei com menos peças, apenas uma - mas isso foi heróico, afinal resisti a várias jogadas de dados e mantive a Sardínia!); 2) A saída no domingo à noite para comer pizza quadrada no centro da cidade; 3) O grande avanço que fiz na leitura de Saudades do Carnaval (Merquior) - aliás, leiam aqui o fichamento que fiz deste livro - e a Carol em The Fountainhead (Ayn Rand), livro que dei para ela de Natal; 4) O delicioso fondue de carne que fizemos no almoço de segunda.
28/3: Pelo visto anos terminados em "3" são cabalísticos para o Rock, pois nesta data mais um grande disco fez aniversário: Houses of the Holy, o mais sofisticado e eclético do Led Zeppelin, foi lançado há exatos 40 anos (28/3/73). As melhores faixas são a swingada "Dancing Days", a psicodélica "No Quarter", o reggae "D'yer Mak'er" e o hino roqueiro "The Song Remains the Same". Porém, as outras quatro canções também são geniais: a lírica "The Rain Song", a folk "Over The Hills And Far Away", o hard rock de "The Ocean" e a divertida "The Crunge".
29/3: Fomos ao centro da cidade, onde a Carol me mostrou 3 dos 4 primeiros morros do Rio de Janeiro a serem ocupados, no século XVI. Foi nosso 1º colóquio ao ar livre, rs.
1º/4: Eu e Carol fomos no Clube Militar para o que pensávamos ser uma palestra sobre o aniversário do golpe (ou, como eles dizem, revolução) de 64. Porém, foi apenas uma noite de autógrafos de Aristóteles Drummond, que escreveu um livro sobre tal acontecimento. Foi, contudo, um bom pretexto para eu conhecer as redondezas do Jardim Botânico.
2/4: Dia da palestra do filósofo Luiz Felipe Pondé na PUC-Rio. Carolina, uma amiga dela e eu chegamos cedo, afinal já imaginávamos que iria lotar. Dentre os temas desenvolvidos por Pondé na palestra eu poderia citar:
1) A crítica à "moçadinha do mundo melhor", fundada na desconfiança naqueles que "acham que vão salvar o mundo não comendo carne vermelha ou andando de bike";
2) O diagnóstico do neopuritanismo que há no "marketing de comportamento" de nossa geração - diferentemente do puritanismo clássico, o "neo" não tem sentimento de culpa (própria);
3) Autores como Nelson Rodrigues, Freud e Dostoiévski possuem uma compreensão grande da natureza humana;
4) A partir de situações como a evocada no texto "Guarani-Kaiowá de Boutique" (que causou muita polêmica, principalmente em São Paulo), Pondé criticou o "politicamente correto".
Ele respondeu uma pergunta que fiz relativa ao niilismo que ele detectou no pragmatismo de Richard Rorty (algo sobre o que ele fala na introdução de Crítica e Filosofia, seu livro sobre Dostoiévski). Primeiro afirmou que o ceticismo bate bem na razão, e não na religião; em seguida, alegou que Rorty acha que aceitar a falta de sentido existencial não leva ao desespero e ao sentimento trágico, pois isso seria resolvido "em assembléia" (ironia de Pondé ao construtivismo sociopolítico defendido pelo pensador pragmatista). Eis o otimismo da engenharia social, que degenera na atitude niilista de achar que é possível transformar tudo.
Em seguida, ele aproveitou a pergunta de outra pessoa para dizer que a Teologia fica tentando se provar ética. O vocabulário teológico vai caducando, mas esperamos cada vez mais da política a redenção, a possibilidade de transformação. A política tomou o lugar da graça.
Gostei bastante da palestra, e ao final pedi para ele autografar meu exemplar de Crítica e Profecia:

4/4: Dia do show do The Cure. Já falei sobre ele neste post.
7/4: Meu resumo foi aprovado para um seminário de Ciência Política que haverá em Porto Alegre na 1ª semana de Junho. O tema é o mesmo do meu trabalho de Teoria Política 2: "O Pensamento Conservador nas Considerações de um Apolítico de Thomas Mann".
À noite houve a festa de aniversário da Carol no Outback; ela completou 21 anos no dia seguinte, mas como dia 7 era domingo ela achou melhor fazer a comemoração neste dia.
8/4: Pela manhã soube da morte de Margaret Thatcher, uma das maiores estadistas que o Reino Unido, a Europa e o mundo já tiveram. Passei boa parte do dia lendo sobre a trajetória dela, e isso só reforçou a admiração que tenho por ela. O pessoal de esquerda a detesta, o que faz sentido, afinal ela encarna todos as idéias e valores (em sua maioria bons) que os esquerdistas condenam. Sua personalidade polêmica e assertiva foi decisiva para acelerar a derrocada do comunismo, a reconstrução da Inglaterra após décadas de hegemonia sindicalista-trabalhista e a implantação de políticas liberais como as privatizações. Nunca me esquecerei da citação que ela fez da oração de São Francisco, quando tomou posse em 79:
"Where there is discord, may we bring harmony. Where there is error, may we bring truth. Where there is doubt, may we bring faith. And where there is despair, may we bring hope."
11/4: Primeira vez que fui no bar dos palmeirenses em Botafogo. O jogo Palmeiras 1x0 Libertad determinou a classificação antecipada do meu time na Libertadores. Foi bem legal torcer e cantar o hino junto com os demais palmeirenses!
12/4: Eu e minha namorada fomos na College Rock Party. Foi a melhor festa que fui no Odisséia até hoje, e curiosamente também a menos cheia. No andar de baixo tocou Rock psicodélico a noite inteira (Beatles, Doors, Mutantes etc.), e no de cima predominou o post-punk e a new wave (Smiths, Cure, Joy Division, Depeche Mode...).
14/4: GP da China de Fórmula 1, com vitória de Fernando Alonso. Além do espanhol, os outros dois melhores pilotos dessa geração (Räikönnen e Vettel) também fizeram uma boa prova.
18/4: Meu amigo de longa data Saulo fez a defesa de sua dissertação de mestrado sobre a conjuntura política do golpe de 1964.
Mais uma noite de Libertadores no Boteco Fala Sério. Sporting Cristal 1x0 Palmeiras; apesar da derrota, o Verdão ficou em 1º lugar no seu grupo, graças a um gol do Libertad no último minuto de sua derrota por 5 a 3 para o Tigre.
25/4: Que dia agitado! Acordei às 7, vi no YouTube uma palestra sobre comunitarismo de um professor de Yale enquanto tomava café da manhã; li o capítulo de Teoria Política Contemporânea (escrito por meu professor de TP3, João Feres, em co-autoria) sobre comunitários enquanto estava no metrô em direção à UERJ; lá, tive aula sobre um belo ensaio do jovem Lukács (Carta a Leo Popper); almocei; fui para o IESP, onde tive aula sobre Robert Nozick e comunitaristas (by the way, MacIntyre is the best one of them!); peguei outro metrô para a UERJ, onde fui de ouvinte em uma aula sobre mito fáustico (e que me deu várias idéias para minha dissertação; aliás, só não faço essa matéria porque, com a exceção dessa aula extra, ela é no mesmo horário de Teoria Sociológia 3); fiz compras; fui para casa, e na portaria descobri que chegou um livro que encomendei - A Dialética Simbólica (Olavo de Carvalho).
26/4: Assisti a Ghost World, um dos filmes mais sinceros (e amargos) sobre amadurecimento. Há personagens que se conformam com as expectativas sociais, e há aqueles que insistem da forma mais intransigente possível em manter a mesma postura. Não há muito espaço para otimismo, e o principal mérito de Ghost World é justamente esse desencantamento. Ainda não li a HQ, mas imagino que também seja de alto nível.
27/4: Para convencer minha namorada de que esta banda é boa (e aproveitando que ela gostou de "The Wild Ones"), fiz no Grooveshark uma lista com as 25 melhores do Suede. À tarde fui ao apartamento do Fernando (santista), onde eu, ele e o Yan (amigo palmeirense que me apresentou o bar supracitado) assistimos a Santos 1x1 Palmeiras. Nos pênaltis infelizmente ficou 4 a 2 para o Peixe.
À noite fui no Bukowski, onde comemoramos o aniversário da Caroline, amiga e quase-xará de minha namorada. Lá tinha jukebox, então passamos a noite inteira ouvindo (e selecionando) boa música.
28/4: Finalmente terminei de ler Os Buddenbrooks (Thomas Mann); passei praticamente Abril inteiro lendo-o. É uma bela obra, repleta de melancolia e ironia. Sem dar maiores spoilers, a minha parte favorita do livro é quando Thomas Buddenbrook, em meio a uma crise existencial, lê o ensaio Da Morte e sua relação com a Indelebilidade de nossa Essência Pessoal, de Schopenhauer:
"Leu as frases que restavam. Fechou o livro e olhou em redor de si... Tinha a impressão de que toda a sua naturza se achava alargada de modo formidável; sentia-se cheio duma ebridade pesada e obscura. A sua inteligência estava nublada e totalmente embriagada por algo de indizivelmente novo, atraente e prometedor, que lembrava o primeiro desejo esperançoso do amor. Mas quando, de mãos gélidas e pouco seguras, guardou o livro na gaveta da mesa rústica, reinava na sua cabeça ardente uma pressão esquisita e tensão inquietante, como se alguma coisa quisesse arrebentar (...). Permaneceu o dia inteiro nesse estado de lerdo arroubamento, surdo, ébrio e vazio.
(...) Em profundo silêncio, no ar um tanto abafado, ele estava de costas, erguendo o olhar para as trevas. Eis que de súbito, a escuridão diante dos seus olhos pareceu rasgar-se, como se a muralha veludosa da noite se partisse, rachando e descobrindo um panorama de luz, imenso, impenetrável e eterno... 'Hei de viver!', disse Thomas Buddenbrook; quase em voz alta; sentiu como o peito lhe estremecia como um soluço íntimo. 'Esta é a revelção: hei de viver! Algo há de viver... e pensar que não sou este 'algo', isso é um engano, é apenas um erro que a morte corrigirá. É isso! É isso!... Por quê?'
(...) Fim e dissolução? Três vezes deplorável quem como pavorosos esses termos insignificantes! Que é que ia findar e se dissolver? Este seu corpo... Esta sua personalidade individual, esse obstáculo lerdo, renitente, defeituoso e detestável, obstáculo que nos impedia de ser outra coisa melhor!" (p. 575-576)
30/4: Dia de Libertadores. Foi a partida de ida das oitavas-de-final entre Tijuana e Palmeiras. Ficou 0x0, um resultado positivo se considerarmos que o time mexicano tem em seu gramado sintético um trunfo. O goleiro Bruno fez várias defesas importantes.
2/5: Dormi muito mal no noite entre os dias 1º e 2; cheguei até a ter uns sonhos meios malucos, quase delirantes. Estava com febre, então segui o conselho da minha mãe e comprei um Novalgina. Porém, recuperei-me poucos dias depois.
3/5: Dia da minha 1ª prova de alemão. À noite finalmente vi O Silêncio dos Inocentes. O pretexto para assistir a esse filme foi a análise que Olavo de Carvalho fez do mesmo em A Dialética Simbólica. Para poder lê-la, resolvi vê-lo. Valeu duplamente a pena: o filme é excelente, repleto de simbolismo, e a interpretação de Carvalho captou bem isso. Eis um trecho:
"Tanto pela estrutura como pelos símbolos a que alude ou pela obediência estrita ao princípio de correspondência, O Silêncio dos Inocentes se revela uma narrativa iniciática, e das mais perfeitas que o cinema já nos deu. Nele não existe uma única referência simbólica ou mitológica que não se encaixe com extrema adequação e felicidade na estrutura total da obra, refletindo esse todo na escala do detalhe; e a estrutura global, por sua vez, tem todos os elementos requeridos: o mestre, o discípulo, o adversário diabólico, as peripécias reveladoras e purificadoras." (p. 204)
4/5: Dia do aniversário de 8 meses de namoro. Dei de presente para a Carolina o livro Estética da Arquitetura (Roger Scruton).
À tarde fomos almoçar na casa do avô materno dela, que também chamou para o almoço uma senhora muito louca, que contou estórias das mais desconexas: filha de militar, militante do MR-8, matou um "milico" (e só foram descobrir o crime quando ela o confessou em 95), teve um filho durante a Guerrilha do Araguaia (detalhe, ela aprendeu a atirar com o Lamarca), foi exilada, morou vários anos na França e na África, é médica, trabalhou na OMS, dirigiu o Hospital Salgado Filho, e está disposta a contar tudo sobre o José Dirceu na Comissão da Verdade. Quando ela foi embora, eu, a Carol e o avô dela fomos checar na internet se alguma dessas coisas é verídica, o resultado foi negativo para todas elas, rs.
5/5: Minha namorada me arrastou para o Aterro; enquanto ela andava de patins, fiquei sentado numa cadeira, tomando sol e água de coco enquanto lia A Dialética Simbólica. À tarde, assisti à São Paulo Indy 300 (vitória de Hinchcliffe, após ultrapassar Sato na última curva) e à final do Campeonato Carioca com o avô paterno de minha namorada. O time dele, Fluminense, perdeu para o Botafogo. Nem preciso dizer a festa que os (escassos) torcedores botafoguenses fizeram no bairro, né?
6/5: Com uma semana de atraso, começa Sociologia 1, matéria para os calouros de História da UERJ em que eu, Fernando e Hugo estamos fazendo estágio docente.
À noite o pessoal do III Fórum Brasileiro de Ciência Política, a ser realizado entre o fim de Julho e o início de Agosto em Curitiba, confirmou que meu resumo para o GT de Teoria Política foi aprovado. Apresentarei um artigo sobre "Humanismo e Liberdade no Pensamento Político de Mario Vieira de Mello". Aproveitei para começar a comprar os livros dele que ainda não li (até então eu só tinha O Humanista, já lido e fichado, e O Homem Curioso, a ser lido); encomendei Desenvolvimento e Cultura: O Problema do Estetismo no Brasil e, como vocês verão, na semana seguinte achei outros dois.
7/5: Perguntei ao meu professor Frédéric se tinha algum exemplar de seu livro Uma História Filosófica da Sociologia Alemã: Volume 1 - Marx, Simmel, Weber e Lukács à venda, e ele meu deu um. A propósito, esta obra, que é uma tradução de sua tese de doutorado (o Volume 2, sobre a Escola de Frankfurt, ainda será publicado), é uma ótima sistematização destes quatro pensadores canônicos da Sociologia germânica; inclusive estou utilizando-a como referência para as aulas de Karl Marx e Max Weber para Sociologia 1, e aproveitarei algo dos capítulos sobre Georg Simmel e Georg Lukács para minha dissertação.
8/5: Criei uma lista de The Fall para apresentar esta lendária banda de post-punk aos meus amigos.
10/5: Aproveitei o embalo e fiz outra playlist no Grooveshark, com meu top 20 (em ordem cronológica, como sempre) do My Bloody Valentine. Às 15h assisti a uma palestra de Javier Sebástian na Fundação Casa de Rui Barbosa: "Entre Inovação e Tradição: Mudança, Continuidade e Ruptura na História Intelectual". Foi bem interessante, e gostei da maneira como ele defendeu uma abordagem à la Gadamer da história das idéias, ao invés dos mais populares Koselleck e Skinner.
Em seguida, eu, minha namorada e dois amigos que viram a palestra conosco pegamos um ônibus para Niterói. Infelizmente cheguei atrasado na feira de livros que estava ocorrendo na UFF; porém, para não perder a viagem, Carol e eu jantamos no Mister Pizza, rs.
P.S.: A pizza de quatro queijos e chocolate estava absurdamente boa.
11/5: No sebo Baratos da Ribeiro achei por apenas 35 reais (com o desconto-pechincha, 30) a Teoria Estética de Adorno; comprei sem titubear, afinal terei que lê-la para a matéria frankfurtiana que estou fazendo em Letras/UERJ e também irei usá-la para um dos capítulos da minha dissertação. Em seguida fui à reunião do Sociofilo, em que se conversou sobre alguns capítulos da tese do Gabriel Peters. Foi uma discussão bem proveitosa; aliás, gostei bastante do estilo ensaístico e criativo que o Gabriel adotou no capítulo sobre o humor ("O homo ridens entre o caos e a ordem").
12/5: Dia das Mães, então entrei no Skype para felicitar a minha, hehe. (À noite escrevi um texto sobre ela e postei em seu Facebook; ela gostou bastante). Pouco depois assisti ao GP da Espanha de Fórmula 1: Alonso venceu em casa, em uma excelente corrida dele e de seu companheiro de equipe, Felipe Massa - o qual largou em nono e chegou em terceiro lugar.
13/5: Vi o último episódio da 4ª temporada de Community. Inicialmente gostei, mas depois de ler uma resenha bastante crítica do mesmo no AV Club, percebi que o capítulo de fato se esforçava demais para agradar ao espectador e pecava em profundidade (isso sem falar nas piadas repetidas). Espero que a 5ª - e provavelmente última - temporada seja melhor do que esta que se encerrou, a qual foi irregular e não chegou aos pés das excelentes 3 primeiras.
14/5: Ouvi o novo disco do Daft Punk, Random Access Memories. É um álbum excepcional, que retoma a sonoridade pop de Discovery, mas com uma tonalidade claramente influenciada pela disco e pelo fim dos anos 70. A sofisticação das canções lembra o Michael Jackson de Off the Wall ou os singles do Chic. Destaque para "Give Life Back to Music", "Instant Crush", "Lose Yourself to Dance", "Get Lucky" e "Contact".
Já que o jogo da Libertadores só começava às 22h, passei no sebo Luzes da Cidade e por sorte achei Nietzsche (Mario Vieira de Mello). Pouco depois, em um bar lotado por 50 palmeirenses, vi a partida Palmeiras 1x2 Tijuana. O time jogou mal e mereceu a derrota; o lance que definiu o jogo foi o "frango" do goleiro Bruno (de herói a vilão...). Espero ir mais vezes no Fala Sério para torcer junto com os demais, foi uma experiência bem legal. Quem sabe voltarei caso o Palmeiras avance para as quartas-de-final da Copa do Brasil?
Na foto abaixo, como podem ver pelas minhas mãos, eu estava incrédulo diante das falhas ofensivas do Verdão:
15/5: Comprei mais dois livros no Luzes da Cidade: O Cidadão: Ensaio de Política Filosófica (Mario Vieira de Mello), que eu descobri que tinha lá graças ao Estante Virtual, e Uma Nova História da Música (Carpeaux), o qual eu reservara no dia anterior.
Após três aulas do Fernando em Sociologia 1, neste dia foi a minha primeira. Falei sobre A Ideologia Alemã (Marx e Engels), enfatizando sua importância para a Sociologia do Conhecimento e como esta obra ajuda a revelar o fundamento normativo humanista de Karl Marx. Fiquei feliz por manter a "neutralidade axiológica" e conseguir passar a aula inteira sem falar mal do barbudo comunista, rs!
17/5: Uma semana depois, voltei a Niterói para assistir à ótima palestra de Renato José de Moraes (um dos responsáveis pela revista Dicta e Contradicta) sobre "Chesterton e a Sanidade Intelectual". Pontos principais:
1) G.K. Chesterton é o "príncipe do paradoxo": inverte o senso comum e quebra uma tradição de idéias limitadoras e rasas, cobertas por uma faceta revolucionária/vanguardista. (P.ex., os socialistas fabianos, como Bernard Shaw e H.G. Wells)
2) Um mal enorme se revela no uso estranho da palavra "ortodoxo": hoje em dia há um orgulho em ser "herege" (que não significa mais errado, mas corajoso) e um desprezo pela "ortodoxia" (que etimologicamente significa "opinião correta"). As pessoas estão se preocupando menos com o que está filosoficamente certo e mais em ser elegantes, politicamente corretas. Este relativismo é manifestado, por exemplo, por John Rawls. O problema é que a democracia parte de uma série de verdades; os direitos humanos não podem estar sujeitos à mera vontade da maioria.
3) Vivemos em incoerência, e este divórcio entre pensamento e realidade leva à loucura. Além disso, esta "esquizofrenia" torna irrelevantes as idéias defendidas. Um exemplo é o pessimismo de Schopenhauer, Nietzsche e Sartre e seu mote "O mundo não vale a pena viver". Outro caso disso é o pensador que quer se tornar totalmente coerente e explicar toda a realidade, como Freud.
4) Descartes coloca o centro do pensar na subjetividade humana; o ápice desta visão é Kant. Porém, há uma série de pensamentos que não podemos provar por meios dedutivos; a inteligência humana não é só razão, tem que se abrir a uma realidade maior. Como diria Chesterton, a imaginação não leva à loucura; a razão, sim: "O louco é o homem que perdeu tudo, menos a razão".O racionalismo tenta colocar a realidade na cabeça do homem, sendo que o não coubesse nela não existe; mas, isso só nos levaria à exaustão mental. Este subjetivismo absoluto, que foi uma bandeira do Iluminismo, foi criticado por autores como Dostoiévski e Kierkegaard.
5) Como diria MacIntyre, nenhum pensador sério é relativista. O relativismo é sadio como postura de momento, mas nunca como finalidade; pelo contrário, neste caso é um sinal de fraqueza de pensamento. Além disso, o relativismo só parece modesto, pois quer se impor, é totalitária. Não por acaso, Mussolini certa vez disse: "Não existe verdade, por isso vamos impor a nossa."
6) A marca da loucura é a combinação de completude lógica e concentração espiritual. Para sair dela é preciso amplitude de espírito, "ar puro". Enquanto há mistério, há saúde; a abertura para se admirar é indispensável até para a Filosofia, que se inicia com o maravilhamento.
7) A sanidade intelectual é a abertura para o infinito. A dignidade de outro ser humano é sagrada. É preciso aceitar que o outro é bom e respeitá-lo. Bom senso, razão e mistério andam juntos.
Depois da palestra passei a tarde inteira conversando com alguns dos meninos desta foto. Foi bem legal saber que há outros conservadores sensatos no Rio de Janeiro; agora que desisti de vez dos libertários, eu precisava encontrar gente que tivesse uma linha de pensamento parecida com a que venho adotando nos últimos tempos.

18/5: Completam-se 33 anos desde a morte de Ian Curtis, vocalista e letrista da Joy Division, uma das melhores bandas de todos os tempos.
Nessa mesma data, em 2006 (o ano mais 'joy-divisioniano' da minha vida, rs), escrevi um texto sobre a banda, incluindo biografia, discografia e o meu top 10 de favoritas (que, aliás, continua praticamente o mesmo - eu só tiraria "Passover" para colocar "These Days").
À noite eu e minha namorada fomos no apartamento de uma amiga dela, onde nós e mais um bando de pessoas assistimos a "Bastardos Inglórios". Foi uma noite divertida.
20/5: Inscrevi-me para o Politéia, e no dia seguinte comprei a passagem para Brasília. Dia 23 de Julho irei rever meus amigos brasilienses! Na simulação serei mais um personagem (lembrando que ano passado fui Bob Fields e em 2011, Alexis de Tocqueville): Otto Maria Carpeaux é o homenageado da vez.
Durante a noite soube da morte Ray Manzarek, o brilhante tecladista de The Doors. Manzarek fez solos geniais em "Light My Fire", "Love Me Two Times" e "Riders on the Storm", e é teve tanto peso artístico nos Doors quanto o vocalista Jim Morrison. Além disso, foi produtor da banda punk X (que, aliás, fez um cover de "Soul Kitchen").
21/5: The Velvet Underground foi a lista da vez. Não foi difícil fazer um top 20 da banda, pois já gravei uma coletânea com praticamente a mesma setlist (a única diferença foi que desta vez incluí "Pale Blue Eyes").
23/5: Aniversário do meu irmão semi-caçula; como ele tem aula cedo, liguei às 6h30 para dar-lhe os parabéns. Neste dia tive uma aula política na UERJ e uma aula engraçada no IESP: na primeira, falamos mais sobre os problemas sociais do Rio de Janeiro e os do mundo acadêmico (p.ex., as bancas de doutorado que ficam cobrando os estudantes a citar/lidar com autores da moda, tipo Bourdieu) do que sobre o autor em questão, Walter Benjamin (aliás, nem gosto muito dele e seu jeito nostálgico-derrotista; como diz uma amiga minha, ele é o hipster de Frankfurt, rs... Porém, admito que seus textos sobre Baudelaire são interessantes); na de Teoria Política 3, a aula sobre teoria do reconhecimento (Hegel, Taylor e cia.) foi bem descontraída.
24/5: Terminei a leitura de Desenvolvimento e Cultura. Este ensaio de Mario Vieira de Mello é de altíssimo nível; poucas vezes li uma reflexão tão profunda sobre a cultura ocidental e a posição do Brasil na história intelectual do Ocidente. Talvez a crítica de Vieira de Mello a Machado de Assis tenha sido exagerada, mas isso é mais do que compensado pela análise penetrante que fez sobre o viés marxista do desenvolvimentismo, a cultura francesa, Dostoiévski, Nietzsche etc. Se der, em breve postarei um fichamento desta obra, que se equipara em qualidade a Saudades do Carnaval.
25/5: Ontem foi o churrasco de boas-vindas aos calouros do IESP. Ao contrário do ano passado, vieram mais doutorandos que mestrandos. Acompanhei a final da Liga dos Campeões por lá; a propósito, Bayern de Munique 2x1 Borussia Dortmund foi um jogaço! O gol decisivo de Robben foi belíssimo. Novamente trouxe meus CDs e discotequei durante a maior parte da tarde. Porém, foi só começar a rodinha de violão que deu vontade de ir embora, rs... porém, antes de sair ainda conversei bastante com o pessoal e tomei sorvete.
26/5: Hoje foi um dia automobilístico. Às 9 da manhã acompanhei o GP de Mônaco de Fórmula 1. A corrida começou morna, mas melhorou na segunda metade, graças ao arrojo de três pilotos: Hamilton (que quase passou Weber na Rascasse), Pérez (que mandou bem ao ultrapassar Button, exagerou um pouco ao passar Alonso e foi imprudente em sua colisão com Räikkönnen) e Sutil (o qual fez belíssimas ultrapassagens em locais pouco óbvios). Kimi, apesar da batida do mexicano, conseguiu uma recuperação histórica nas voltas finais, indo de 16º para 10º. A vitória foi de Rosberg, que contou com o baixo desgaste dos pneus da Mercedes em Mônaco para finalmente fazer valer sua pole, ao contrários dos 2 GPs anteriores.
Eu e Carolina almoçamos enquanto víamos F-Indy. As 500 Milhas de Indianápolis foram emocionantes, principalmente nas voltas finais. Após várias trocas de liderança, Tony Kanaan assumiu a ponta faltando 3 voltas para o final e contou com uma bandeira amarela para sagrar sua prova impecável. O triste desfecho do piloto baiano na São Paulo Indy 300 (quando estava na liderança, seu carro ficou sem combustível graças a um erro de cálculo da equipe) foi mais do que compensado por este triunfo na mais tradicional corrida dos EUA.
30 abril 2013
Trabalho final para a disciplina "O Quadro de Todos Nós: Ironia, Angústia, Desespero e Reconhecimento", que fiz no semestre passado. Entreguei o trabalho no início de março e recebi a nota (tirei 10) semana passada.
Personagens
do diálogo: César, Júlia e Alice.
Cenário:
no pátio próximo ao prédio da faculdade de ciências humanas de uma
universidade.
Júlia:
César, meu querido, para onde vais e de onde vens?
César:
Venho da minha última aula de Oficina Literária, e estou indo para a biblioteca
começar a escrever o meu romance.
J:
Você está escrevendo um livro? Que interessante! Sobre o que ele será?
C:
Pois é, ainda não decidi... Só sei que quero escrever um romance de formação,
um Bildungsroman! Desde que li “A
Montanha Mágica” de Thomas Mann decidi que esta é a forma capaz de combinar a
maior diversidade de conteúdos com a maior profundidade filosófica possível.
J:
Pode ser, mas isso me faz lembrar um livro que li dia desses, no qual Lukács falava
sobre os romances de formação... Ele alertou para dois perigos: o de “romantizar
a realidade até uma região de total transcendência à realidade” ou o de levá-la
“até uma esfera completamente livre e além dos problemas, para a qual não
bastam mais as formas configuradoras do romance.” (1) Ou
seja, é uma tentativa de síntese bem complicada, pois um passo em falso pode te
levar para uma utopia ou para uma obra prosaica e anti-poética. Você está
ciente desses riscos?
C:
Sim, estou. Aliás, por sorte encontrei você no caminho, pois queria justamente
a sua opinião sobre um assunto: deve a literatura priorizar a ética ou a
estética?
J:
Eis uma pergunta complicada! Mesmo que eu já tenha uma posição sobre isso, acho
que expressá-la de imediato faria com que fosse só uma “opinião”, e não o resultado
de uma reflexão que me atormenta desde minha adolescência. Sim, antes mesmo de
entrar na universidade eu ficava divagando sobre esses assuntos... [Risos] Não quero soar dramática, mas
perguntas como essa são existenciais; toda a visão de mundo – e, quem sabe, até
o caráter – de uma pessoa pode ser destrinchada a partir de sua resposta. Mas,
enfim... Você está com pressa?
C:
Não, posso deixar para ir à biblioteca mais tarde. Com esse suspense todo,
confesso que estou ainda mais interessado em saber o que você pensa sobre esse
tema!
J:
Ótimo. Não tenho mais aulas hoje, então podemos desenvolver esse assunto com o
cuidado que ele merece. Primeiro vamos estabelecer os pressupostos. Como você
deve saber, sou uma leitora voraz de Arthur Schopenhauer, portanto muito do que
penso sobre arte e filosofia têm influência dele.
C:
Sim, eu sei. Porém, não me importaria se você repetisse os motivos pelos quais
considera que Schopenhauer pode ser um ponto de partida para essa discussão.
J:
Pois bem, antes de tudo devo dizer que não sou uma schopenhaueriana ortodoxa. Por
exemplo, não concordo com os aspectos mais budistas e até niilistas da ética
dele (ou seja, a negação absoluta da Vontade); contudo, quando li “Aforismos
sobre a Sabedoria de Vida” encontrei a apologia de um estilo de vida estóico
com o qual me identifico. Porém, o que mais me atrai em Schopenhauer é o que
ele pensa sobre estética. De acordo com ele, o modo de conhecimento que considera
unicamente o essencial propriamente dito do mundo, o conteúdo verdadeiro dos
fenômenos, conhecido com igual verdade por todo o tempo – numa palavra, as
Idéias, que são a objetidade imediata e adequada da Vontade, “é a arte, a obra
do gênio. Ela repete as Idéias eternas apreendidas por pura contemplação, o
essencial e o permanente dos fenômenos do mundo.” (2)
C:
Isso soa meio platônico, não?
J:
Sim, mas Schopenhauer alega que as Idéias platônicas não têm o estatuto
ontológico máximo, como acreditava o filósofo grego; ou seja, existe um “ente”
superior a elas. As Idéias são arquétipos que constituem a máxima objetivação
possível da Vontade – a qual, como você deve lembrar, é a coisa-em-si: cega,
inflexível e onipotente. O máximo que podemos fazer em relação à Vontade, força
superior que nos escraviza, é representá-la, objetivá-la. O essencial de todos
os graus de objetivação da Vontade constitui a Idéia; cada uma delas é a forma
permanente de toda uma espécie de coisas.
Voltando
à questão da arte, a transição possível do conhecimento comum das coisas
particulares para o conhecimento das Idéias ocorre subitamente, quando o
conhecimento se liberta do serviço da Vontade e, com isso, o sujeito cessa de
ser meramente individual. Ou seja, com a representação artística passa a ser
possível conceber o mundo não mais segundo o princípio de razão – isto é, com
um olhar científico –, mas a partir de uma “fixa contemplação do objeto que lhe
é oferecido, exterior à conexão com outros objetos, repousando e absorvendo-se
nessa contemplação.” (3)
C:
Hum, então quer dizer que a arte é o modo de consideração das coisas que
independe do princípio da razão, da ciência... Isso significa que só na
representação artística seria possível uma contemplação objetiva das Idéias,
dos arquétipos – e, ao mesmo tempo, que a arte ameniza as imposições da
Vontade?
J:
Exatamente. Porém, essa amenização é temporária, e só um gênio artístico consegue
prolongá-la a ponto de criar uma obra-prima que emane uma arte “pura”. De toda
forma, quando todo o poder do espírito é devotado à intuição e nos afunda por
completo nesta; quando a gente se perde por completo nesse objeto de
contemplação, isto é, “esquece o próprio indivíduo, o próprio querer, e
permanece apenas como claro espelho do objeto” – então é como se ambos, sujeito
e objeto, se tornassem unos, “na medida em que toda a consciência é
integralmente preenchida e assaltada por uma única imagem intuitiva.”
C: Uau! Realmente o que Schopenhauer fala
sobre a criação artística faz sentido... Contudo, o que você, a partir dele, quer
dizer com isso tudo? Há um primado da estética ou da ética na literatura – para
nos restringirmos à arte que me interessa?
J: Ah, a resposta para isso está na
influência avassaladora deste pensador nos artistas da segunda metade do século
XIX e início do XX; por exemplo, nos simbolistas. Pense bem: qual era mesmo o
ideal artístico daquela época?
C:
“A arte pela arte”... Mas, quer dizer então que Schopenhauer era um
esteticista?
J:
Sim! Porém, não da mesma forma que Nietzsche...
Entra
Alice.
Alice:
Ouvi alguém falar do meu mestre bigodudo?
C:
[Risos] Impressionante que é só falar
de Nietzsche que o ouvido supersônico da Alice capta!
A:
Engraçadinho... Brincadeiras à parte, eu estava voltando da aula de História da
Arte Moderna, mas ao encontrá-los aqui no pátio, pensei que seria mais
interessante bater papo com vocês do que ir direto para casa.
J:
É mesmo? Estamos lisonjeados com a sua presença, Alice.
A:
Obrigada, amiga! Mas afinal, sobre o que vocês estão conversando? E por que
falaram do “filósofo das marteladas”?
C:
É porque pretendo escrever um romance, mas ainda não sei exatamente sobre o que
ele será... Para isso, preciso primeiro decidir se o mais importante na criação
literária é a ética ou a estética. Aí perguntei para a Júlia o que ela pensa
sobre isso. Já que você chegou, também queria saber a sua opinião sobre essa
questão.
A:
Ora, meu jovem, mas é claro que a estética é o mais importante! Inclusive
porque Nietzsche nos mostra que a ética é algo relativo; não passa de
instrumento de poder. A moral é antinatural, pois condena os instintos de vida;
os “valores” são a expressão do ressentimento dos fracos e covardes contra os
fortes e audaciosos. Sendo assim, a Arte se situa acima do Bem e do Mal, pois é
a única atividade através da qual o homem, manifestando a sua vontade de poder,
restabelece o seu contato com os instintos agressivos reprimidos pela educação
moral, podendo assim criar um sentido para a existência. Nas palavras do
próprio Nietzsche: “Assim intui o mundo somente o homem estético, que aprendeu
com o artista e com o nascimento da obra de arte (...) como necessidade e jogo,
conflito e harmonia, têm de se emparelhar para gerar a obra de arte. Quem
pedirá ainda a uma tal filosofia também uma ética, com o necessário imperativo
‘tu deves’(...)? O homem, até sua última fibra, é necessidade, e totalmente não-livre
- se se entende por liberdade a tola pretensão a poder mudar arbitrariamente de
essência como quem muda de roupa, pretensão que até agora toda a filosofia
séria rejeitou com o devido sarcasmo.” (5) Logo,
a boa literatura é sempre transgressora, vanguardista. Cabe a ela destruir os
ídolos e evocar a arte pela arte.
J:
Discordo, Alice. Embora eu também defenda o caráter auto-suficiente da arte,
essa postura que você adotou é relativista. Reduzir a arte àquilo que seja “vanguardista”
e “transgressor” é ignorar a tradição e o patrimônio cultural que a Humanidade
acumulou durante toda a sua história. A literatura contemporânea carrega forte
influência de nossos antepassados. Obras como “Dom Quixote” e “Hamlet”
permanecem atuais; os dilemas morais do príncipe de Dinamarca e as aventuras do
Cavaleiro da Triste Figura continuam a ser fonte de inspiração para todos nós.
A:
O problema, amiga, é que este “cânone” é uma construção social elitista; ele representa
a ideologia dos grupos dominantes. É preciso questionar essa hegemonia,
empoderar quem está de fora. A verdadeira arte é aquela que tem caráter
subversivo e, para isso, abraça o experimentalismo na linguagem. Quem leu o “Ulisses”
de James Joyce ou mesmo os escritos da Geração Beat sabe do que estou falando! A narrativa linear cedeu espaço
para o fluxo de consciência, e não há por que colocar indagações (ou
indignações) éticas nisso.
J:
“Construção social elitista”? “Ideologia dos grupos dominantes”? “Empoderar”? Parece
até que você decorou os jargões de seus professores esquerdistas, pós-modernos,
multiculturalistas etc. Não me venha com essas patacoadas politicamente
corretas, pois elas são uma ameaça à autonomia do estético! Já diria Harold
Bloom: todos os cânones, incluindo esses contra-cânones da moda, são elitistas.
A questão que interessa “é a mortalidade ou a imortalidade das obras
literárias. Onde se tornam canônicas, elas sobreviveram a uma imensa luta nas relações
sociais, mas essas relações têm muito pouco a ver com luta de classes.” (6)
A:
Mas que absurdo! Você é tão reacionária quanto seu amado Schopenhauer! Mesmo
sendo sua amiga, já não é de hoje que antipatizo com suas posições conservadoras.
Desde que começamos o curso, quatro anos atrás, sinto a mesma repulsa às suas
vociferações contra as vanguardas artísticas, seu universalismo infantil, seus
delírios metafísicos...
C:
Calma, meninas! Não briguem por isso. Eu sei que ambas têm posições bem
distintas, muito embora compartilhem do rótulo de “esteticistas”; porém, isso
não é motivo para se ofenderem. Chegamos a um impasse, e a discussão está à
beira do ad hominem. Sendo assim, vou
agir como mediador e vou retomar a pergunta inicial; isto é, se na literatura o
elemento mais importante é o ético ou o estético. Irei formular questões para
ambas, uma de cada vez, de forma que o debate fique mais organizado. Tudo bem?
J
& A: Sim, estamos de acordo.
C:
Beleza, então. Alice, você argumentava em prol do esteticismo a partir de Nietzsche,
certo? Poderia nos explicar o porquê de considerá-lo como portador de tal
visão?
A:
Claro! Como já disse, Nietzsche dava grande importância para a arte; basta lembrar-se
de aforismos maravilhosos como “Sem a música a vida seria um erro.” (7) O que
importa para ele é o belo, mesmo que este apareça de um modo cruel,
inteiramente estético, naquele espírito libertino, irresponsável, frívolo, que só
os bons poetas ousam manifestar. A embriaguez é elemento essencial do impulso
artístico; o elemento dionisíaco deve prevalecer sobre a obsessão formalista – e,
no final das contas, moralista – do apolíneo. O que importa é o prazer insólito
e sem pudor. Uma obra que representa bem isso é “Às Avessas”, do Huysmans: um
romance sobre o nada, desprovido de pregações morais e repleto de minuciosas
descrições de objetos e ambientes.
C:
Entendi, mas por que o esteticismo dele não é o mesmo que o de Schopenhauer?
A:
O problema de Schopenhauer foi considerar a arte, o gênio e a beleza como
expressões da negação da Vontade, quando na verdade, são a afirmação desta. Por
exemplo, quando ele fala que a beleza é redentora do instinto procriador, do
“cerne da vontade”, há nisso uma moralização altruísta, pois tenta suprimir
nossos impulsos naturais em prol de uma suposta salvação.
C:
Concordo com você: Schopenhauer não é inteiramente esteticista; mas, falaremos
mais sobre isso depois... Antes disso queria citar uma passagem do “Crepúsculo
dos Ídolos” que parece dizer justamente o oposto dessa interpretação de
Nietzsche que você está propondo.
A:
Como assim? De que trecho você está falando?
C:
[Risos] Por sorte, trouxe o livro
hoje. Aqui está: “A luta contra a
finalidade é sempre luta contra a tendência moralizante
na arte, contra a sua subordinação à moral. L’art
pour l’art significa: ‘Ao Diabo com a moral! ’. – Mas mesmo essa
hostilidade revela a força dominante do preconceito. Havendo-se excluído da
arte o fim da pregação moral e do aperfeiçoamento humano, não se segue daí que
ela seja sem finalidade, sem sentido, sem objetivo; em suma, l’art pour l’art – um verme que morde a
própria cauda. (...) O que faz toda arte? Não louva? Não glorifica? Não
escolhe? Não enfatiza? (...) Isto é uma coisa acessória? Casual? (...) Ou não é
antes o pressuposto para que o artista possa...?
Seu mais profundo instinto visa a arte, não visa antes o sentido da arte, a vida? (...) A arte é o grande
estimulante para a vida: como poderíamos entendê-la como sendo sem finalidade,
sem objetivo como l’art pour l’art?” (8)
A:
Sim, é possível que ele tenha dito isso, mas...
C:
O que acontece, Alice, é que seu filósofo bigodudo nega qualquer identificação
com o ideal da arte pela arte. Na interpretação de Nietzsche, o que importa é a
aproximação entre vida e a arte numa conjunção e reconciliação de Apolo e
Dionísio, como ocorre nas tragédias gregas. Ora, essa concepção vitalista está
longe de ser uma negação da dimensão ética da arte!
A:
Pode até ser, mas ainda assim o que mais importa na estética dele é o elemento
dionisíaco.
C:
Será mesmo? Usar Nietzsche para justificar uma arte hedonista e sem fundo ético
não me parece correto, até porque ele apresenta os dois impulsos como diversos,
mas complementares. “O impulso dionisíaco era um movimento vital, torrencial,
transbordante, que transcendia a individualidade humana – por ele ameaçada nos
seus contornos, nos seus limites, na sua forma; o impulso apolíneo, ao
contrário, era criador de formas, um sonho de imagens que resistia à violência
do primeiro impulso e encaminhava suas energias para a produção de formas belas
e individualizadas.” Um não pode existir sem o outro: “entregue a si mesmo, o
impulso dionisíaco era como uma terrível avalanche que destruía tudo na
embriaguez de sua passagem descontrolada; sem contato com o impulso dionisíaco,
o impulso apolíneo se estiolava, sem significação verdadeira.” (9)
A:
Insisto que o dionisíaco é o elemento central da filosofia de Nietzsche. Porém,
já percebi que você é cabeça-dura e não desistirá dessa sua ingênua posição
universalista... Mas, deixa pra lá; qual é então a sua interpretação do pensamento nietzscheano?
C:
Defendo uma visão mais culturalista, humanista de Nietzsche. O que aprecio nele
é fazer da filosofia uma vitória sobre si mesmo, uma autocrítica de seus
valores mais profundos. Ele não é arrogante quando se considera um psicólogo. Ao
mesmo tempo, não devemos levá-lo ao pé da letra, sendo que ele próprio
confessou em “Ecce Homo” que ataca mais violentamente justamente aquilo que
mais respeita. Nisso podemos incluir o cristianismo, a Alemanha, Schopenhauer
etc. Assim falava Thomas Mann: “Ele sentia como uma forma de homenagem as
ofensas mais terríveis que contra eles lançava. (...) Não apenas é arte o que Nietzsche oferece, mas também lê-lo é uma arte.
Quem leva Nietzsche no ‘sentido estrito’, ao pé da letra, quem crê nele, está
perdido.” (10)
Porém,
há algo de que não podemos salvá-lo: o erro de Nietzsche é a relação completamente falsa que
traça entre a vida e a moral, considerando-as contrárias. Na verdade elas são inseparáveis;
a ética é um suporte para a vida e o homem moral é um bom “cidadão da vida” -
talvez um pouco chato, mas muito útil. A pura afirmação da vida só poderia
levar às profundezas, ao elemento irracional e animalesco, à autodestruição.
Além
disso, como deixei a entender na minha própria pergunta inicial, a verdadeira
oposição é entre a ética e a estética. Não é a moral, mas sim a beleza que está
ligada à morte. Eis o meu problema com o esteticismo em sua versão hedonista: a
beleza em sua forma pura e espontânea “leva à embriaguez e à cobiça, arrisca
levar um coração nobre a cometer um atentado atroz contra o sentimento,
atentado que sua própria exigência de austera beleza repudia como infame” (11).
Sem freios morais o belo conduz ao abismo, é
o abismo.
A:
Não sei se concordo com essa visão... Porém, admito que seja uma perspectiva
possível sobre Nietzsche, permitida pela ambigüidade que marca a obra dele.
J:
Já eu concordo plenamente, César! Nietzsche não é exatamente um esteticista;
sua afirmação exacerbada da Vontade o levou a uma filosofia circular; sob tal
impasse, talvez se explique o interesse tardio dele por explicações
cosmológicas como o “eterno retorno”. Devo admitir, contudo, que há um quê de
poético nessa “vitória sobre si mesmo”, e de fato Nietzsche é muito mais
humanista do que seus epígonos niilistas gostariam de crer...
C:
Exato, mas não pense que vou livrar a sua barra, Júlia... Tenho também alguns pontos
para elucidar contigo. Você insiste que Schopenhauer seja esteticista, certo?
J:
Sim, e não tenho motivos para crer no contrário. A arte é um fim em si mesmo, é
contemplação pura. As grandes obras artísticas evocam uma objetividade e paz de
espírito na qual se torna manifesto o calmo e sereno estado de espírito do
artista livre da opressão da Vontade.
C:
Já eu penso que também ele tem um fundo ético em sua teoria estética. Isso se
delineia na própria distinção entre o belo e o sublime: “No belo o puro
conhecimento ganhou a preponderância sem luta, pois a beleza do objeto, isto é,
a sua índole facilitadora do conhecimento da Idéia, removeu da consciência, sem
resistência e portanto imperceptivelmente, a vontade e o conhecimento das
relações que a servem de maneira escrava”. No sublime ocorre o oposto: “aquele
estado de puro conhecimento é obtido por um desprender-se consciente e violento
das relações do objeto com a vontade conhecidas como desfavoráveis, mediante um
livre elevar-se acompanhado de consciência para além da vontade e do
conhecimento que a esta se vincula. Uma tal elevação tem de ser não apenas obtida
com consciência, como também mantida com consciência”.
(12)
J:
Poxa, não sabia que você também lia bastante Schopenhauer... Mas espere aí, você
está querendo dizer que há um elemento ético no sublime?
C:
Exatamente. O caráter sublime “notará erros, ódio, injustiça dos outros contra
si, sem no entanto sentir inveja; até mesmo reconhecerá as qualidade boas dos
homens, sem, no entanto procurar associação mais íntima com eles; perceberá a
beleza das mulheres, sem cobiçá-las. (...) Pois, em seu próprio decurso de vida
com seus acidentes, olhará menos a própria sorte e mais a da humanidade em
geral, e, assim, conduzirá a si mesmo mais como quem conhece, não como quem
sofre.”
(13)
J:
Ainda não estou convencida... Fale mais dessa conexão entre a estética
redentora e a doutrina do sofrimento humano.
C:
Para Schopenhauer a literatura, bem como a filosofia, trata do conflito da
Vontade consigo mesma, que se manifesta no plano empírico pela vontade de viver.
Os conceitos, tanto na poesia e tragédia quanto na filosofia, podem abrir um
amplo território imagético, expondo assim o conflito humano de “ser para a
morte”.
É
nesse sentido que Thomas Mann fala no humanismo pessimista que emana da
filosofia schopenhaueriana: “Não é em
vão que Schopenhauer vê a dignidade do homem na estátua do Deus das Musas. É uma visão profunda e particular, unindo a arte, o
conhecimento e a dignidade do sofrimento
humano, que se revela nesta imagem; é um humanismo
pessimista que, considerando que o humanismo tem essencialmente a
colaboração dum otimismo de retórica, representa qualquer coisa inteiramente
nova e, ouso afirmá-lo, uma visão de futuro fecunda no domínio das convicções.
No homem, suprema objetivação da Vontade, este humanismo é iluminado pelo mais
claro conhecimento; mas à medida de que o conhecimento atinge maior nitidez,
que a consciência se eleva, também o sofrimento cresce.”
(14)
Ou seja, justamente porque a vida humana é inescapavelmente ligada à dor e ao
sofrimento é que cabe à arte nos salvar desse mundo despido de ilusões e sonhos
metafísicos. Se isso não tem a ver com ética, então não sei o que mais tem!
J:
Ok, agora você foi mais convincente. Porém, agora que você já fez todo esse
exercício dialético comigo e com a Alice, qual é a posição que defende quanto
ao tema que propôs?
C:
Pois bem, afirmo que, por mais que os dois elementos sejam indissociáveis,
acredito que a ética tem ligeira preponderância. Não quero com isso chegar ao
exagero de Platão quando defendeu uma poesia moralizante, mas acredito que a
grande literatura é aquela que consegue encontrar o equilíbrio entre forma e
conteúdo. O que une Thomas Mann, Dostoievski, Goethe e outros grandes
escritores é a capacidade deles de combinar personagens e enredos com
profundidade psicológica e dilemas morais e existenciais com um estilo que seja
belo (ou sublime).
Além
disso, como diria Lukács, a relação entre ética e estética no romance é
diferente das formas literárias anteriores: enquanto na épica, trágica e lírica
“a ética é um pressuposto puramente formal que, por sua profundidade, torna
possível um avanço até a essência formalmente condicionada”, no romance “a
intenção, a ética, é visível na configuração de cada detalhe e constitui,
portanto, em seu conteúdo mais concreto, um elemento estrutural eficaz da
própria composição literária.” (15) Além disso, na forma romanesca uma trama bastante comum é a aventura da
interioridade em busca de seu valor próprio, isto é, a peregrinação do
indivíduo problemático ao autoconhecimento. E é justamente por isso que prefiro
o romance de formação, pois...
J:
Lembre-se, César, do que eu lhe disse no início da conversa: Lukács tem
ressalvas quanto ao Bildungsroman.
C:
Sim, mas também em “A Teoria do Romance” ele afirma que, normativamente, o
romance de formação visa à “reconciliação do indivíduo problemático, guiado
pelo ideal vivenciado, com a realidade social concreta.”
(16) Ou seja, é a forma que coloca mais explicitamente a necessidade de conciliar
não só ética e estética, mas também mundo interior e mundo exterior. Thomas Mann,
que é um autor que Lukács tanto admira pelo realismo crítico de seus romances,
é outro que afirma a indivisibilidade do problema da humanidade: o estético, o
moral e o político-social são uma unidade, e a arte “não estende a fria mão
diabólica do niilismo à vida”.
(17)
J:
Pode até ser isso mesmo, mas cabe uma ressalva li numa pertinente crítica que
Otto Maria Carpeaux fez a autores como Albert Camus e o próprio Mann: a
literatura não pode exacerbar seu caráter filosófico/ensaístico. “O estudo das
minúcias gramaticais, do vocabulário, da construção das frases trai
implacavelmente o segredo mais íntimo; e num autor de trabalho minucioso, de
vocabulário artificialmente escolhido, de frases meticulosamente construídas (...),
tudo trai a impotência para o verbo espontâneo, penosamente disfarçada sob as máscaras
da estilização. (...) A grande maioria dos romances da nossa época não passam
de ensaios, de ensaios frustrados.”
(18)
C:
É, tem toda razão, Júlia. Por mais que eu goste de Thomas Mann, às vezes as
pretensões ensaísticas ou filosóficas que ele tenta dar às suas obras são
maçantes e prejudicam a fruição artística do belo ou sublime. Porém, acredito
que esse problema é mais remediável do que o hiper-esteticismo de alguns contemporâneos
dele que, sob os mais diversos rótulos, desenvolveram uma literatura
auto-indulgente na forma e niilista no conteúdo. Não consigo compactuar com essas
apologias à decadência e essa tentativa de renegar a tradição...
Mas
enfim, isso nos levaria a outro debate, e acredito que já chegamos a uma
conclusão neste. O que procurei demonstrar a vocês é que Schopenhauer e
Nietzsche não são tão esteticistas quanto muitos de seus epígonos querem crer;
também defendi que a ética é elemento fundamental da forma romanesca, na medida
em que o denominador comum dos grandes romancistas é a combinação da beleza ou
sublimidade no estilo com a densidade psicológico-filosófica dos personagens e
tramas; deve-se, portanto, evitar tanto a literatura excessivamente moralizante
quanto o perigoso esteticismo da “arte pela arte”. O bom romance é aquele que
consegue retratar a busca pelo sentido existencial de uma forma genuinamente
poética.
Obrigado
pelas suas contribuições, Alice e Júlia. Quando eu já tiver escrito alguns
capítulos do romance, mostrarei para vocês!
A:
Mal posso aguardar! Mas espero que você leve a sério a crítica que acatou sobre
o ensaísmo exacerbado... [Risos]
|
|